⏳Mentir para ter paz


Olá, Reader!

Começo esta escrita com lágrimas interrompidas para prestar atenção na digitação; vai que eu erro alguma grafia ou troco alguma palavra inadequada?!

Eu entendo quem não sustenta ou não mostra quem realmente é. Primeiro, por não sermos uma conta exata, como a raiz quadrada de 4. Segundo, porque é foda lidar com quem não suporta a ideia de não ser como nós, pelo menos, não nesta vida.

Autenticidade alheia gera raiva, e até ódio, em algumas pessoas. Elas queriam ter a audácia, a ousadia, o borogodó, mas nada disso é copiável.

[pausa no devaneio; bora entrar no assunto desta edição]

Dia desses, resolvi bancar um “não vou” sem justificativas. Saí de um grupo do zap criado para organizar uma festa junina. Eu fui nos anos anteriores; este ano decidi não ir por, simplesmente, não estar a fim. Dois minutos depois de ter apertado o botão “sair do grupo”, recebi mensagem da dona:

― Oi! Você não vai participar da festa?

― Olá! Não vou.

― Poxa, mas está tudo bem?

― Está tudo ótimo!

Percebi que a minha resposta não a convenceu. Chega a ser engraçado como passei a vida toda agradando pessoas, mesmo quando eu não queria. Soou transgressor demais eu estar me sentindo ótima e não querer ir à festa. Afinal, o “normal” seria estar na merda, fodida, deitada em posição fetal.

Senti um misto de alívio com estranhamento. “Será que eu estava bem mesmo?” Não deixei de amar a organizadora do evento; não estava deprimida. Fiquei um tempinho refletindo…

Contei para minha mãe. Ela também me questionou sobre o motivo. Respondi a verdade. Daí ela soltou “agora que você ROMPEU com a fulana, como vai ser daqui pra frente?”

R-O-M-P-E-U.

Mais uma vez, me veio o pensamento de que porra de imagem foi construída na mente das pessoas sobre mim? E aceitei o tamanho da parcela da minha responsabilidade nisso.

Meodeoosssss, essa sabatina toda porque não quero ir a uma festa!

Quantas coisas nós fazemos pelo bem de determinadas relações quando, na verdade, queríamos dizer “não vou”, “não vou fazer” e “não quero”?

Cansativo bancar nossas verdades e desejos. O (auto)julgamento vem a jato. A única forma de evitar esse tipo de situação seria mentindo (não é exatamente uma afirmação, está mais para pergunta indireta).

Mentir para ter paz.

Dizer que não vai por estar mal ou por ter um compromisso importante. Satisfazer a vontade alheia em detrimento da nossa apenas para não dar explicações. E pior…

… usar essa atitude como moeda de troca de reciprocidade.

Se eu faço o que não quero para agradar alguém, vou esperar que esse mesmo alguém faça isso por mim. E adivinha? Ele não faz. Daí eu me frustro com uma narrativa existente apenas em minha cabeça.

[agora as lágrimas secaram de vez]

O meu compromisso comigo mesma ao fazer esta newsletter é sorrir durante a escrita. Até aqui, ainda não consegui, então farei uma pausa. Me recuso a concluir sem me divertir em alguma medida.

[voltando após colocar um bolo de banana com farinha de rosca para assar]

Entre mentir para não se submeter a um inquérito e praticar sincericídio culposo existe O Intervalo. Nele tem angústia, ansiedade, autoengano, ego inflado, baixa autoestima, botão do foda-se, incertezas, concessões… inevitavelmente humano.

Às vezes eu quero chorar

mas o dia nasce,

e eu me esqueço (...)

Versos da canção “Eu não sei dançar” interpretada por Marina Lima, que sempre me visitam, pois me esqueço, mesmo, de chorar. Hoje me permiti. Meu travesseiro sabe como autorresponsabilidade pesa; vira e mexe, gostaria de voltar à época da Dalvinha, pimpolha, cujas atividades eram estudar e brincar. Vivencio a nostalgia sem culpa.

Vida adulta e seus dissabores me provam o quanto as mentiras sinceras cantadas pelo divo Cazuza são, de fato, interessantes e necessárias para suportar as incongruências inerentes ao ser humano.

[mudei o final do texto três vezes; chega!]

Termino aqui na tentativa de não performar após colocar a vulnerabilidade na bandeja e servi-la.

Um cheiro, um colo, um cafuné, tudo no silêncio. Para você.


P.S.: o bolo quase queimou.


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A parte mais gostosa do meu trabalho é falar abertamente como ser humano, reconhecendo incongruências e suscitando reflexões que se tornam processos internos.

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Dalva Corrêa

Escrevo sobre o intervalo entre o que sabemos e o que fazemos. Reflexões para pessoas inteligentes que sabem muito, mas travam na execução, especialmente, quando o medo de julgamento fala mais alto que a própria voz.

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